O Millennium BCP anunciou esta quarta-feira, 29 de Julho de 2026, um lucro líquido de 565,8 milhões de euros no primeiro semestre do ano, um aumento de 12,7% face aos 502,3 milhões de euros do período homólogo. Em conferência de imprensa em Oeiras, o CEO Miguel Maya classificou o desempenho como um semestre com bons resultados, sublinhando a capacidade do banco de continuar a gerar valor.
A actividade em Portugal continua a ser o principal motor do grupo, com um resultado líquido de 470,2 milhões de euros, mais 10,9% do que no primeiro semestre de 2025. As operações internacionais tiveram, no entanto, o crescimento mais expressivo, avançando 25,2% para 183,5 milhões de euros, impulsionadas sobretudo pelo Bank Millennium, na Polónia, com 166,9 milhões de euros de lucro, um acréscimo de 38,7% face à primeira metade de 2025, beneficiando da forte redução dos encargos associados aos créditos hipotecários em francos suíços. Entre Janeiro e Junho, a base de clientes activos do banco cresceu 4%, para 7,4 milhões, com os clientes que utilizam os canais digitais a subirem 8% e a representarem já 75% do total.
Ao nível operacional, a margem financeira consolidada aumentou 3,4% nos primeiros seis meses do ano, e as comissões somaram 361,7 milhões de euros, acima dos 347,3 milhões de euros do primeiro semestre de 2025 — só em Portugal, as comissões atingiram 322,4 milhões de euros, mais 5%. Os custos operacionais subiram 5,4%, para 720,2 milhões de euros. O resultado antes de imparidades e provisões situou-se em 1.230,1 milhões de euros, acima dos 1.164,4 milhões de euros do período homólogo, enquanto o resultado antes de impostos avançou para 936,4 milhões de euros, face aos 788,9 milhões de euros de um ano antes. Ainda assim, na sessão desta quarta-feira em bolsa, as acções do BCP recuaram 3,14%, para 1,02 euros.
Os resultados são particularmente relevantes para a Sonangol, petrolífera estatal angolana que é o segundo maior accionista do banco. O grupo angolano detinha, à data mais recente divulgada pela instituição, uma participação qualificada de 19,49% do capital do BCP.
A Sonangol é, actualmente, um dos dois accionistas de referência do BCP, a par do grupo chinês Fosun, que detém uma participação equivalente, também próxima dos 20% do capital. Segue-se a EDP, com uma posição residual de cerca de 2%, e o fundo norte-americano BlackRock, com pouco mais de 3%. A estrutura accionista do banco tem-se tornado cada vez mais internacional, com investidores portugueses a perder peso relativo face aos grupos chinês e angolano e a accionistas de língua inglesa.
A relação entre os dois maiores accionistas de referência tem sido historicamente próxima: em anos anteriores, Fosun, Sonangol e EDP chegaram a apresentar-se em conjunto a assembleias-gerais para propor listas para os órgãos sociais do banco. Mais recentemente, contudo, têm surgido notícias sobre uma eventual saída da Fosun do capital do BCP, num movimento que, a confirmar-se, poderia alterar significativamente o equilíbrio accionista da instituição — e colocar a Sonangol na posição de maior accionista único do banco.
A presença da Sonangol no capital do BCP remonta a 2007 e, durante quase duas décadas, representou mais um símbolo de influência política do que um investimento financeiramente rentável, tendo a petrolífera acumulado perdas superiores a dois mil milhões de euros na posição até 2024. A recuperação da rentabilidade do BCP nos últimos anos, associada a uma política accionista mais generosa, tem vindo a inverter esse cenário: este ano, a assembleia-geral do banco aprovou a distribuição de 90% do resultado líquido aos accionistas, repartidos entre dividendos directos e um programa de recompra de acções.
Com o lucro semestral agora anunciado a confirmar a trajectória de crescimento do banco, a fatia da Sonangol na distribuição de resultados tende a reforçar-se, consolidando a instituição portuguesa como uma das participações financeiras mais rentáveis do portefólio externo da petrolífera angolana, ao lado da Galp.



