Da rastreabilidade do tabaco ao controlo do álcool e dos combustíveis, a SICPA instalou-se discretamente nos bastidores da fiscalidade africana — com uma reputação global ensombrada por escândalos de corrupção.
Por detrás de cada cigarro vendido nos quiosques de Luanda, de cada garrafa de whisky nas prateleiras dos supermercados do Talatona, ou de cada litro de combustível abastecido nos postos da Sonangol, pode esconder-se a sombra de uma empresa suíça tão poderosa quanto desconhecida do grande público: a SICPA. É esta empresa familiar, sediada em Lausanne, que fornece a muitos governos africanos os sistemas que permitem controlar, autenticar e rastrear produtos de utilização diária — do tabaco aos medicamentos, dos cosméticos ao álcool. Angola, como outros países do continente que enfrentam os mesmos desafios de falsificação e evasão fiscal, não está alheia à sua influência.
Fundada em 1927 e sediada em Lausanne, a SICPA é uma empresa privada especializada em tintas de segurança para moeda e documentos sensíveis, bem como em sistemas de rastreabilidade para produtos sujeitos a impostos especiais de consumo, como combustíveis, álcool e tabaco.  Pouco conhecida do grande público, a empresa actua com uma discrição notória — mas o seu alcance é global.
Perante o avanço da falsificação e da evasão fiscal que afectam produtos de utilização diária — tabaco, álcool, medicamentos, cosméticos e combustíveis —, vários governos africanos têm recorrido à SICPA para implementar sistemas de controlo e autenticação. A empresa fornece tecnologia que permite rastrear esses produtos ao longo de toda a cadeia de distribuição, assegurando a cobrança dos impostos devidos ao Estado. De acordo com o Counterfeiting Intelligence Bureau, a SICPA fornece mais de 85% das tintas utilizadas em moeda corrente em todo o mundo.  Em África, a sua influência estende-se dos selos fiscais apostos em maços de cigarros aos sistemas digitais de controlo de bebidas alcoólicas.
A expansão da SICPA no continente africano não está, porém, isenta de controvérsia. A empresa tem sido alvo de investigações por práticas que suscitam sérias questões sobre os métodos utilizados para conquistar contratos governamentais. Em Abril de 2023, a Procuradoria-Geral da Suíça condenou a SICPA ao pagamento de 81 milhões de francos suíços por responsabilidade criminal corporativa relacionada com actos de corrupção em pelo menos três países.  A condenação destacou “deficiências organizacionais” que permitiram o pagamento de subornos a funcionários públicos no Brasil, na Colômbia e na Venezuela. 
No Brasil, onde a empresa operava ao abrigo de contratos de rastreabilidade de selos fiscais de cigarros e bebidas, a suspensão do contrato com a Casa da Moeda ocorreu em 2016, após investigações da Polícia Federal terem identificado pagamentos ilegais no valor de 15 milhões de dólares. Em 2021, num acordo de leniência, a SICPA admitiu as irregularidades e comprometeu-se a devolver 762 milhões de reais aos cofres públicos. 
Com cerca de 2.800 colaboradores distribuídos por escritórios e unidades fabris nos cinco continentes, a SICPA posiciona-se como parceira de confiança de governos, bancos centrais e indústrias de segurança.  Porém, a sua natureza de empresa familiar e a opacidade das suas operações dificultam a fiscalização independente dos contratos que celebra com Estados africanos, frequentemente sem concurso público transparente. A investigação da Africa Intelligence lança luz sobre um actor que, operando nas margens da visibilidade pública, acumula influência crescente sobre as receitas fiscais de numerosos países do continente — e sobre a integridade dos produtos que chegam às mãos dos consumidores africanos todos os dias.



