Uma decisão do tribunal de Singapura, proferida a 30 de Julho, veio reacender a já longa disputa que opõe o presidente executivo do grupo Castel a alguns dos herdeiros do fundador Pierre Castel, um conflito que, ainda que travado a milhares de quilómetros de distância, tem repercussões directas em Angola, onde o grupo francês detém a Cuca, marca líder do mercado cervejeiro nacional.
O tribunal confirmou a suspensão de Gregory Clerc, CEO do grupo Castel, das suas funções como administrador da Investment Beverage Business Management (IBBM), sociedade sediada em Singapura que superintende todas as actividades da gigante cervejeira africana, entre as quais se conta o Grupo Castel Angola.
A decisão atinge igualmente Pierre Baer, presidente do conselho da IBBM, apontado como próximo colaborador do CEO da Castel.
Em vigor desde 9 de Fevereiro, na sequência de uma primeira decisão, a suspensão deverá manter-se até que os tribunais se pronunciem sobre o mérito da causa. Tal medida surgiu após uma conturbada assembleia geral extraordinária da IBBM, realizada a 2 de Fevereiro, no final da qual Romy Castel, filha do fundador Pierre Castel, garantiu ter conseguido a demissão de Gregory Clerc — alegação por este veementemente contestada.
A decisão de 30 de Julho constitui o mais recente episódio de uma luta pelo poder que opõe o chefe do grupo Castel a determinados herdeiros, nomeadamente Romy Castel.
O diferendo terá tido origem na intenção de afastar Alain Castel, sobrinho do fundador, de duas das entidades do grupo, no final de 2025.
Já em 2026, Romy Castel assumiu publicamente posição, acusando Gregory Clerc, antigo advogado fiscal do pai, por este nomeado para dirigir o grupo em Outubro de 2023 de usurpação de poder. Com vista a recuperar o controlo, procura agora a sua destituição do cargo máximo, o que implicaria igualmente o seu afastamento das restantes entidades do grupo.
Gregory Clerc, por seu turno, rejeita as acusações que lhe são feitas, bem como o risco de uma vaga de demissões, e pretende manter-se em funções.
O CEO da Castel sustenta estar apenas a seguir a vontade do fundador: Pierre Castel, cuja idade e estado de saúde o afastaram dos negócios, terá estruturado o império familiar de modo a que os herdeiros pudessem beneficiar do êxito da empresa sem, contudo, assumirem o seu comando.
Nos últimos meses, ambas as partes têm multiplicado os processos judiciais, em Singapura e noutras praças.
Em Genebra, Gregory Clerc apresentou queixa contra Romy Castel por falsificação e uso de documento falso, enquanto esta o processou por má gestão e branqueamento de capitais.
No Luxemburgo, Alain Castel move, por seu lado, um processo contra o CEO da Castel por uso indevido de bens sociais.
Como tem sido apanágio deste caso, a decisão suscitou duas leituras opostas. Do lado dos herdeiros, sustenta-se que a decisão “reforça a legitimidade da tomada de poder iniciada por Romy Castel e seus associados”. Lamentando “manobras para manter o poder a todo o custo”, geradoras de instabilidade em prejuízo do grupo, a filha do fundador reclama o “restabelecimento de uma governação assente na ética, na transparência e na experiência prática”.
Já o grupo Castel apresenta versão bem diversa. Segundo fonte próxima do processo, a decisão limita-se a manter os efeitos da providência cautelar até que seja proferida sentença definitiva quanto ao mérito da causa, não tendo qualquer influência sobre o processo em curso, centrado em apurar se determinadas resoluções foram efectivamente adoptadas na referida assembleia geral extraordinária da IBBM. Por seu turno, os próximos de Gregory Clerc lamentam “uma exposição quotidiana de queixas”, prejudicial ao grupo, e “tentativas permanentes de desestabilização”, garantindo que o CEO mantém a plena confiança dos órgãos de gestão.
O que está em causa para Angola
O Grupo Castel iniciou a sua actividade em Angola em 1994, com a reabilitação e gestão da fábrica da Cuca, então a primeira cerveja produzida no país.
Desde então, expandiu-se de forma significativa, passando a deter também as fábricas da Nocal, EKA, N’gola, entre outras, e tornando-se um dos maiores grupos industriais e empregadores do país, com milhares de trabalhadores nas suas várias unidades fabris espalhadas pelo território nacional.
A Cuca continua a ser, actualmente, a marca de cerveja líder de mercado em Angola. Assim, embora a disputa judicial se desenrole essencialmente em Singapura, Genebra e Luxemburgo, e diga respeito à governação da estrutura accionista que chapeia o grupo a nível internacional, a instabilidade no topo da hierarquia da Castel não deixa de ser motivo de atenção em Angola, dado o peso da marca Cuca — e do grupo em geral — na economia e no quotidiano do país.
Líder na África francófona e importante interveniente no mercado do vinho em França e na Europa, o grupo Castel atravessa período conturbado desde a saída do fundador e antigo líder autoritário, Pierre Castel.
Gil Martignac, quadro histórico do grupo, era dado como provável sucessor, mas deixou a empresa de forma abrupta em 2023, tendo sido substituído pelo actual CEO, Gregory Clerc.
O antigo advogado de Pierre Castel assumiu assim a liderança de um poderoso grupo industrial — com facturação prevista de 6,9 mil milhões de euros para 2025 e cerca de 40 mil trabalhadores, mas que enfrenta múltiplos desafios.
Composto por uma multiplicidade de entidades e edificado sobre práticas de optimização fiscal, o grupo encontra-se ainda sob investigação da Procuradoria Nacional Financeira francesa.
Embora colabore com as autoridades e seja prematuro antecipar o desfecho da investigação, o próprio grupo reconheceu, no relatório de 2025 divulgado esta semana, que a situação gera “incertezas fiscais” susceptíveis de acarretar “consequências financeiras significativas”.



