Aos 99 anos, Pierre Castel, fundador do Grupo Castel e uma das maiores fortunas de França, assiste, praticamente em silêncio, a uma amarga disputa de sucessão que ameaça abalar o império que construiu ao longo de mais de sete décadas, desde uma pequena casa de comércio de vinhos em Bordéus até a um conglomerado avaliado em cerca de dez mil milhões de dólares.
No centro do conflito estão Gregory Clerc, o actual presidente executivo do grupo, e a filha de Pierre Castel, Romy Castel, à qual se juntou o sobrinho do fundador, Alain Castel. Clerc, antigo advogado fiscalista suíço que outrora defendeu o próprio Pierre Castel num litígio com o fisco de Genebra, foi nomeado em Outubro de 2023 para a liderança da D.F. Holding, tornando-se a primeira pessoa alheia à família a assumir um cargo que, tradicionalmente, era ocupado pelo próprio fundador.
Essa ascensão foi acompanhada por uma reformulação da direcção da holding luxemburguesa que controla o grupo, com a saída de quadros históricos próximos da família e a entrada de Alain Castel no conselho — de onde, entretanto, Romy Castel saiu. A tensão agravou-se ao ponto de a família tentar destituir Clerc numa assembleia geral extraordinária realizada em Singapura, em Janeiro, sem êxito, mas com a intenção declarada de voltar a tentá-lo numa próxima reunião.
Alain Castel acusa publicamente Clerc de «captação do poder» e de gerir «pelo medo e pela ameaça», enquanto o executivo suíço mantém o apoio do conselho da D.F. Holding, que rejeita as acusações da família e critica a exposição pública de assuntos internos do grupo.
A este braço-de-ferro soma-se agora a pressão das autoridades fiscais francesas. Segundo informações avançadas por Alain Castel, o fisco gaulês — através do organismo conhecido como Bercy — investiga o grupo há vários anos, num processo relacionado com declarações de emprego no Luxemburgo, que poderá culminar numa liquidação fiscal cujo valor, avançado pela imprensa francesa, poderá rondar mil milhões de euros, montante que a Castel Vins classifica como uma estimativa «no limite superior» de um intervalo.
A empresa garante ainda que o processo de regularização junto da administração fiscal foi iniciado pela «antiga direcção», em 2022, e não por Clerc.
Paralelamente, um outro dossiê, relativo a uma investigação conduzida entre 2022 e 2025 pelo Serviço Nacional Antifraude francês, foi já remetido ao Ministério Público Financeiro de Paris, estando o grupo a aguardar as respectivas conclusões.
O episódio não é inédito na trajectória do fundador: em 2023, a justiça suíça condenou Pierre Castel, residente na Suíça desde 1981, a pagar mais de 350 milhões de euros por não ter declarado parte da sua fortuna ao longo de vários anos, processo que, na altura, teve precisamente Clerc como advogado do bilionário.
Conhecido em França por marcas como Baron de Lestac, Listel ou Kriter, e pela cadeia de lojas Nicolas, o Grupo Castel tornou-se, sobretudo, um gigante das cervejas em África, onde detém operações em mais de vinte países, incluindo a compra, em Janeiro de 2025, de uma participação de 80,4% na Guinness Ghana Breweries à Diageo, por 81 milhões de dólares.
Angola é um dos mercados mais expressivos dessa presença africana.
O Grupo Castel começou a operar no país em 1994, quando assumiu a gestão da fábrica da Cuca, e expandiu-se depois através da privatização de outras cervejeiras históricas, como a Nocal e a Eka, além de investimentos na produção de bebidas não alcoólicas, no fabrico de garrafas de vidro e na agricultura, com apoio à produção de milho em mais de dois mil hectares na província de Malanje. Actualmente, o Grupo Castel Angola conta com dez fábricas, emprega directamente mais de cinco mil pessoas e lidera o mercado cervejeiro do país com as marcas Cuca, Nocal e Eka.
A estrutura acionista da Cuca, líder do mercado angolano, ilustra bem a forma como o capital do grupo se encontra repartido no país.
A cervejeira é detida directa e indirectamente em 51% pelo Grupo Castel, através da Brasseries Internationales Holding (BIH), estrutura criada em 2005, quando o Estado angolano transferiu a maioria das suas ações à Soba, sociedade mista entre a francesa BIH e a GEFI, holding ligada ao MPLA.
A própria GEFI detém ainda hoje 12,8% do capital da Cuca, cabendo a fatia remanescente a acionistas privados angolanos.
O Estado chegou a manter uma pequena participação residual na empresa — 1% do capital —, entretanto alienada por cerca de 79,5 milhões de dólares, no âmbito do programa de privatizações, que abrangeu também pequenas participações públicas na N’gola e na Eka.
Fontes da Líder deduzem que esta configuração acionista — com o Grupo Castel a deter o controlo maioritário, significa que a crise de sucessão em curso em Bordéus, no Luxemburgo e em Singapura poderá ter repercussões que ultrapassam a esfera puramente francesa, com potencial impacto directo em interesses accionistas angolanos.
O grupo, cujo volume de negócios atingiu 6,5 mil milhões de euros em 2024, atravessa assim aquela que é descrita como a mais profunda crise de governação da sua história.



