Angola e banca são duas linhas que se cruzam na história deste luso-angolano que nasceu em Alvarenga, aldeia do concelho de Arouca. Fernando Leonídio Mendes Teles não nasceu em Luanda. Não tem avós da Samba nem primos do Rangel. Mas é em Angola que a sua vida ganhou o peso que tem — e foi em Angola que o seu nome ficou escrito em letras maiúsculas na história da banca deste país.
Começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, mas também estudou, tirou cursos superiores de contabilidade e gestão em Lisboa, estudando à noite. Depois foi para onde ninguém queria ir. “Saí de Portugal, onde era director de um banco, e fui para o exterior abrir um novo banco, numa altura em que ninguém queria sair de Portugal e ir para Angola quando estava ainda em guerra.”
Essa aposta — feita quando a maioria fugia — é o que distingue Fernando Teles de tantos outros que chegaram depois, quando o caminho já estava aberto e o risco já tinha nome.
Fernando Teles, detentor de dupla nacionalidade, angolana e portuguesa, é o segundo maior accionista do Banco BIC, com 37,5% das acções. A filha do ex-presidente José Eduardo dos Santos, a bilionária Isabel dos Santos, é a principal accionista da instituição bancária, possuindo 42,5% do capital.
Antes de fundar o BIC, Fernando Teles permaneceu 11 anos como director do escritório de representação do Banco de Fomento Exterior, que deu lugar ao Banco de Fomento Angola, uma operação do português BPI. Quando chegou o momento de arriscar por conta própria, Fernando Teles associou-se a três outras figuras do mundo empresarial e bancário de Angola: Sebastião Lavrador, Luís Cortez e Manuel Pinheiro Fernandes.
O resultado desta parceria, fundada em 2005, cresceu para algo que poucos imaginavam: um banco avaliado em 2 mil milhões de dólares, com uma carteira de depósitos de quase 4 mil milhões de dólares e fundos próprios de cerca de 540 milhões de dólares — para um banco que começou com um investimento inicial dos accionistas de apenas 30 milhões de dólares.
EuroBic — Portugal
Fernando Teles era conhecido como “a” referência portuguesa na banca angolana. Foi instrumental no crescimento do Banco de Fomento Exterior, foi figura-chave na passagem a Banco Fomento Angola, com o BPI, e o pai do BIC Angola e do seu “espelho” em Lisboa: o BIC Portugal, mais tarde renomeado EuroBic.
Fernando Teles fundou o BIC porque tinha linha directa não só com Isabel dos Santos como com o accionista fundador Américo Amorim. Em 2014, Américo Amorim vendeu a posição de 25% que detinha no BIC a Fernando Teles e a Isabel dos Santos, que também adquiriram a participação de 10% da Ruagest. Fernando Teles ficou assim com 37,5% do capital do BIC, enquanto Isabel dos Santos se tornou detentora de 42,5%.
BIC Seguros
Mesmo após o seu afastamento da liderança executiva do banco, a mesa da assembleia-geral de accionistas do BIC Seguros confiou ao gestor os destinos daquela seguradora — entidade criada com as cores e activos do BIC. O sector segurador tornou-se assim o seu novo reduto de influência directa.
Fazendas e Agronegócio — A outra paixão
Se a banca é a sua casa, a terra é a sua paixão confessa. Fernando Teles é descrito como um dos maiores agro-empresários do país, produzindo em Angola, Brasil e Portugal. 
O seu universo agrícola inclui várias empresas constituídas em parceria familiar:
A Anglopig, Lda., a Tecnopig, Lda. e a Agro-Quibala, Lda., todas criadas a 15 de Novembro de 2013, têm a mesma estrutura accionista — Fernando Teles com 80% do capital em cada uma delas, enquanto a sua esposa, Maria Laurentina Almeida e Silva Teles, detém os restantes 20%. 
A Agrozootec, Lda., criada a 23 de Setembro de 2010, é detida em 80% por Hugo Silva Teles, filho de Fernando Teles, que é também administrador executivo e membro do Conselho de Administração do Banco BIC. 
Em Portugal, Fernando Teles comprou por 1,9 milhões de euros duas quintas — a Quinta da Boa Vista e a Quinta da Ponte, em Vilarinho dos Freires, no concelho de Peso da Régua  — que pertenciam ao falido último líder da Casa do Douro.
A Sucessão — Hugo Teles
O filho não ficou à sombra do pai. Ficou à frente. Fernando Teles deixou a presidência do Conselho de Administração e da Comissão Executiva do Banco BIC, postos em que foi substituído por Fernando Duarte e pelo seu próprio filho, Hugo Teles. 
“O Hugo Teles é o presidente da administração executiva desde Dezembro de 2018. Está a dar conta do recado, também já está connosco há 14 anos, começou quando abrimos. Não foi por ser meu filho, muito embora isso me torne feliz.” 
O Homem e a Sua Marca
Fernando Teles declarou: “Não vou deixar de ser accionista, continuarei a acompanhar os bancos onde participo e também a companhia de seguros.
Estou na banca há 53 anos e é altura de começar a pensar na sucessão.” 
Em Fevereiro de 2025, na VIII Conferência sobre Agricultura em Luanda, o empresário confrontou publicamente o Estado angolano, declarando que jamais houve um pagamento das bonificações do programa Angola Investe desde 2019: “É preciso que as pessoas todas saibam. Por isso é que a agricultura em Angola não se desenvolve.” 
Um homem que começou aos 14 anos num banco português, atravessou o Atlântico quando ninguém queria, e construiu — pedra por pedra, kwanza por kwanza — um dos maiores impérios financeiros e agrícolas da Angola contemporânea.


