Sem deter reservas próprias de bauxite ou de outros minerais críticos, Angola procura, ainda assim, garantir um lugar de destaque no comércio destas matérias-primas, essenciais à transição energética mundial.
A aposta mais visível dessa estratégia é a fábrica de alumínio instalada na Zona Franca da Barra do Dande, na província do Bengo — apesar de o país não ter bauxite, a matéria-prima usada no alumínio, nem capacidade para a transformar em alumina, o produto intermédio necessário ao processo de fundição.
A unidade, liderada pela chinesa Huatong Angola, já arrancou a produção, com um investimento inicial de 250 milhões de dólares e capacidade para 120 mil toneladas por ano numa primeira fase. Está prevista uma segunda fase, orçada em mais 500 milhões de dólares, que deverá elevar a produção anual para 240 mil toneladas.
A aposta angolana assenta noutras vantagens que não a posse de matéria-prima: a Zona Franca da Barra do Dande já conta com o Terminal Oceânico, construído pela Sonangol e inaugurado em Fevereiro de 2025, vocacionado para armazenamento de combustíveis.
Está também prevista a construção de um porto de águas profundas na mesma zona franca, orçado em 900 milhões de dólares e liderado pela Huatong Angola em parceria com o fundo Berkshire Waterhouse Infrastructure Development — um investimento que, uma vez concluído, deverá reforçar a capacidade de movimentação de matérias-primas na região.
A zona franca oferece ainda infra-estruturas partilhadas, taxas de negócio favoráveis e fornecimento eléctrico estável.
O projecto insere-se numa tendência mais ampla em África. Segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e de outras organizações, o continente concentra grande parte das reservas mundiais de minerais essenciais à transição energética — os metais do grupo da platina, por exemplo, representam 92% das reservas globais, e o cobalto 56%.
Vários governos africanos começam agora a ver nesta procura mundial uma oportunidade para mudar os termos do comércio de recursos naturais, deixando de exportar apenas matéria-prima em bruto.
É neste contexto que se insere a estratégia angolana: sem deter reservas de bauxite, o país procura posicionar-se como ponto de passagem e processamento, apostando nas suas infra-estruturas portuárias e logísticas.
O Corredor do Lobito, um dos maiores projectos de infra-estruturas da África Subsariana, termina precisamente no porto do Lobito, em território angolano. A obra combina linhas ferroviárias novas e já existentes para ligar o Copperbelt da África Central — rico em cobre e cobalto — a esse porto.
O projecto conta com forte apoio dos Estados Unidos e da Europa, e é visto como uma alternativa ocidental à linha ferroviária TAZARA, construída pela China, que liga a Zâmbia ao porto tanzaniano de Dar es Salaam.
Para Angola, o Corredor do Lobito representa uma oportunidade de se afirmar como rota estratégica no escoamento de minerais críticos produzidos no interior do continente.Nem todos os países africanos seguem a mesma lógica de Angola, que aposta nas infra-estruturas.
O Zimbabué impôs controlos à exportação de lítio, a Guiné fê-lo em relação à bauxite, e a República Democrática do Congo restringiu tanto o cobalto como o cobre — todos com o objectivo de forçar a criação de indústria de processamento dentro das próprias fronteiras.
Uma análise conjunta da consultora CRU e do Banco Mundial, publicada em Junho, alerta, porém, para as dificuldades desse caminho: as barreiras à criação de uma indústria de processamento bem-sucedida são “vastas”.
Segundo o documento, factores como energia, infra-estruturas, logística e capacidade técnica podem pesar mais do que a própria dimensão das reservas minerais — o que reforça a lógica da aposta angolana em infra-estrutura e localização, em vez de depender de reservas que o país não possui.



