O preço do café voltou a registar uma subida acentuada nos mercados internacionais, com os contractos futuros da variedade Arábica a valorizarem perto de 10% no espaço de apenas duas sessões.
Segundo comunicado da correctora XTB, o movimento resulta, sobretudo, dos atrasos nas colheitas brasileiras, da redução dos stocks disponíveis e das dificuldades logísticas que continuam a afectar o sector a nível mundial.
Ainda que as previsões continuem a apontar para uma colheita record no Brasil — maior produtor mundial de café —, a XTB nota que o mercado se encontra, actualmente, mais preoccupado com a disponibilidade imediata do produto do que propriamente com a produção prevista para os próximos meses.
As fortes chuvas que se têm feito sentir em Minas Gerais, principal região produtora de Arábica, dificultam de forma significativa a colheita, a secagem e o transporte dos grãos. Bastou uma semana para que caíssem cerca de 32 milímetros de chuva, um valor muito acima da média habitual para a época do ano.
A correctora acrescenta que, além dos atrasos verificados, subsistem preoccupações quanto à qualidade dos grãos produzidos, o que poderá limitar o crescimento dos stocks certificados junto da bolsa ICE, mesmo que a produção total venha a revelar-se elevada.
A redução acentuada das reservas de café certificadas pela ICE constitui um segundo factor apontado pela XTB. De acordo com a análise da correctora, os stocks têm vindo a cair ao longo de 25 sessões consecutivas, acumulando uma quebra na ordem dos 26%, e aproximam-se, deste modo, dos níveis mais baixos registados desde o final da década de 1990. Esta contracção das reservas, sustenta a XTB, está a intensificar a procura por entregas imediatas, contribuindo directamente para a subida das cotações.
As tensões que persistem no mar Vermelho continuam, por seu turno, a provocar atrasos no transporte marítimo, encarecendo os fretes e obrigando as empresas a manterem níveis de stock mais elevados para fazer face às necessidades do mercado. Na óptica da correctora, estes constrangimentos logísticos continuam a limitar a disponibilidade efectiva do café junto dos mercados consumidores.
Não obstante a recente valorização, a XTB considera que o mercado continua, no essencial, convicto de que a oferta deverá melhorar nos próximos meses, à medida que a colheita brasileira for avançando e o café chegar, progressivamente, ao mercado.
A correctora não deixa, contudo, de alertar que, caso os preços se mantenham próximos dos níveis actuais ao longo do Outono, tal poderá indiciar que a escassez física do produto é mais séria do que as previsões de produção deixam antever — circunstância que manteria a pressão sobre as cotações internacionais do café.
A conjuntura internacional não é indiferente a Angola, país que tem vindo a apostar na recuperação da cafeicultura como um dos pilares da diversificação da economia. Segundo dados do Instituto Nacional do Café (INCA), Angola produziu, em 2025, cerca de 10.500 toneladas de café, um crescimento de 38,4% face ao ano anterior, ao mesmo tempo que as exportações somaram 3.288 toneladas, mais 51,8% do que em 2024, rendendo ao país cerca de 12 milhões de dólares, com Portugal como principal destino.
Para o biénio 2026/2027, o INCA traçou como meta elevar a produção para as 14.000 toneladas — mais 33,3% — e as exportações para as 5.000 toneladas, um crescimento de 52,1%.
São, ainda assim, números modestos quando comparados com os cerca de 225 mil toneladas anuais que o país chegou a produzir na década de 70, altura em que Angola figurava entre os maiores produtores mundiais de café Arábica. Num contexto de preços internacionais em forte alta e de escassez global do produto, a retoma da produção angolana surge como uma oportunidade para o país reforçar a sua presença num mercado que, tudo indica, continuará sob pressão nos próximos meses.



