A Unitel, maior operadora de telecomunicações do país, foi alvo de um ataque cibernético na madrugada de ontem, terça-feira, menos de 24 horas depois de o Estado ter concluído a maior oferta pública inicial (IPO) já realizada em Angola.
A coincidência de datas não tardou a suscitar reacções, entre as quais a do economista Janísio Salomão, que questiona publicamente se os dois episódios estarão ou não relacionados.
Em comunicado, a Unitel informa que o incidente foi detectado às 02h20, tendo afectado parte da sua infra-estrutura tecnológica e provocado constrangimentos generalizados nos serviços de voz, dados móveis e acesso à Internet em todo o território nacional.
A operadora, que conta com mais de 21 milhões de clientes num país com cerca de 39 milhões de habitantes, garante ter accionado de imediato os mecanismos de resposta e contenção, com a mobilização das equipas técnicas e de cibersegurança.
Até ao fecho desta matéria, a empresa não avançara pormenores sobre a natureza ou a origem do ataque, nem um prazo para a normalização integral da rede.
O incidente surge no rescaldo directo de uma operação financeira histórica. O Estado angolano vendeu 7,5 milhões de acções, 15% do capital da Unitel, a 40.040 kwanzas cada — o topo do intervalo indicativo —, angariando cerca de 300,3 mil milhões de kwanzas, o equivalente a aproximadamente 329 milhões de dólares.
A procura superou largamente a oferta, atingindo uma taxa de subscrição de 120,72%, com mais de 11 mil novos investidores a tornarem-se accionistas da operadora. O período de subscrição decorreu entre 6 e 24 de Julho, e a estreia das acções da Unitel na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) estava agendada para hoje, quarta-feira.
É precisamente esta proximidade temporal que motivou o comentário do economista Janísio Salomão, divulgado nas redes sociais horas depois de conhecido o ataque. Salomao começa por se demarcar de qualquer leitura conspirativa, sublinhando, no entanto, que há acontecimentos que merecem reflexão e não devem ser simplesmente ignorados.
Segundo relata, a sua primeira reacção, ao saber da falha nos serviços da Unitel, foi admitir uma simples avaria técnica; só posteriormente equacionou a hipótese de um ataque informático deliberado.
Para o economista, a questão mais desconcertante prende-se com a robustez dos sistemas de defesa de uma empresa da dimensão da Unitel.
Uma operadora que movimenta milhares de milhões de dólares e que acabara de captar centenas de milhões de dólares num IPO recorde deveria, argumenta, dispor de mecanismos de cibersegurança capazes de prevenir, detectar e responder com celeridade a ameaças desta magnitude.
Salomão reconhece, ainda assim, que estabelecer uma relação de causa-efeito entre o IPO e o ataque seria, nesta fase, puramente especulativo, cabendo às entidades competentes apurar as causas do incidente e esclarecer se existe efectivamente alguma ligação entre os dois factos. Admite, porém, inclinar-se pessoalmente para a tese de que o ataque não terá sido fortuito, recorrendo ao ditado popular segundo o qual “não há fumo sem fogo”.
O economista encerra a sua análise com uma advertência de alcance mais geral: nenhum sistema é totalmente imune, pelo que a vigilância deve ser permanente. Na era digital, argumenta, a cibersegurança deixou de ser um mero investimento tecnológico para se afirmar como um factor estratégico de continuidade do negócio e de confiança dos utilizadores — tanto mais premente quando a empresa em causa acaba de passar a ter milhares de novos accionistas a escrutinar o seu desempenho.
Até ao momento, não existe qualquer confirmação oficial de uma ligação entre o ataque cibernético e o processo de admissão da Unitel à negociação em bolsa. A operadora assegura que continuará a acompanhar a situação com prioridade máxima, comprometendo-se a manter os clientes informados sobre a evolução do incidente através dos seus canais oficiais.



