A UNITEL prepara-se para uma das maiores operações da história do mercado de capitais angolano: a Oferta Pública de Venda (OPV) de 15% do capital social da maior operadora de telecomunicações do país, com admissão à negociação prevista para a Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA).
O processo remonta a Outubro de 2022, quando o Estado angolano nacionaliza, por decreto presidencial, as participações que a GENI, S.A. e a Vidatel Limited detinham na operadora sociedades ligadas, respectivamente, ao general Leopoldino Fragoso do Nascimento, o “Dino”, e a Isabel dos Santos. Com esse acto, o Estado passa a deter a totalidade do capital da UNITEL, repartido a meias entre o Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE) e o universo Sonangol.
O passo seguinte surge com o despacho presidencial n.º 195/24, que insere a UNITEL no Programa de Privatizações de Activos do Estado (PROPRIV 2023-2026) e determina a venda de 15% do capital social por via de OPV.
Inicialmente prevista para o primeiro semestre de 2025, a operação foi sucessivamente adiada, tendo o presidente do IGAPE, Álvaro Fernão, recusado avançar datas concretas ainda em Setembro do ano passado.
A confirmação surgiria com a desmaterialização das acções na Central de Valores Mobiliários de Angola (CEVAMA), o mesmo procedimento seguido pelo BAI, em 2022, e pelo BFA, antes da sua OPV de Setembro de 2025 — até agora a maior operação já realizada na BODIVA.
O calendário de mercado está fechado. O prospecto foi aprovado pela CMC a 1 de Julho de 2026 e publicado dois dias depois, a 3 de Julho. O período de subscrição abriu a 6 de Julho, às 14h00, e prolonga-se por 18 dias corridos: 7.500.000 acções ordinárias colocadas à venda, das quais 2% reservadas a trabalhadores da UNITEL e das suas participadas, e os restantes 13% abertos ao público em geral, a um preço entre 36.036 e 40.040 kwanzas por acção.
As ordens de compra podem ser alteradas ou revogadas até 21 de Julho, às 15h00, tornando-se irrevogáveis a partir dessa hora. O período da oferta encerra-se a 24 de Julho, também às 15h00. Segue-se uma sessão especial da BODIVA, a 27 de Julho, dedicada ao apuramento de resultados, com fixação do preço final da oferta no mesmo dia.
A liquidação física e financeira ocorrerá a 28 de Julho, em regime T+1 após a sessão de apuramento, e a admissão à negociação na BODIVA está marcada para 29 de Julho.
Do ponto de vista financeiro, a UNITEL chega à bolsa com activo total de Kz 1.423.686 milhões a 31 de Dezembro de 2025, mais 13,4% do que um ano antes, e um resultado líquido de Kz 158.369 milhões, um crescimento de 59,3% face a 2024.
A operação conta com a BFA Capital Markets e a Áurea como assistentes e colocadores principais, tendo a Distribuidora Valor, a Eaglestone, a Hemera Capital Partners Securities e a Standard Invest como colocadores.
O prospecto da oferta identifica também um processo judicial ainda em curso, relacionado com a origem das acções colocadas à venda.
Segundo apurou a Líder junto de uma análise do jurista Rui Verde, o documento reconhece, a página 100, que a nacionalização de 2022 deu origem a pelo menos duas acções judiciais e a um pedido de providência cautelar, movidos pelas sociedades dos antigos accionistas, que contestam a legalidade dos decretos presidenciais por alegada falta de fundamentação e desproporcionalidade da medida.
A providência cautelar foi indeferida pelo tribunal, o que permitiu à privatização avançar, mas as acções principais continuam pendentes, sem decisão final. Segundo a mesma análise, os processos-crime conhecidos contra os antigos accionistas — um relativo ao caso CIF, no que toca ao general Dino, e um despacho de pronúncia sobre a Sonangol, no caso de Isabel dos Santos — não têm, para já, relação directa com a Unitel nem transitaram em julgado.



