Sem capital privado e externo não há diversificação possível, e sem estabilidade macroeconómica esse capital não chega em escala, alerta Albert G. Zeufack, ex-economista-chefe do Banco Mundial para África.
Angola terá de mobilizar cerca de 14 mil milhões de dólares por ano até 2030 para acelerar a transformação estrutural da economia e aproximar-se do desempenho das economias em desenvolvimento mais bem-sucedidas.
O número, avançado pelo Banco Africano de Desenvolvimento, é apontado por Albert G. Zeufack, ex-economista-chefe para África do Banco Mundial, como o dado macroeconómico mais impressionante do momento angolano. Dois terços deste valor destinam-se a infra-estruturas sociais e económicas.
O restante financia capital humano e produtividade. Os recursos públicos cobrem apenas uma fracção da necessidade — o que, segundo o autor, torna o capital privado e externo condição indispensável para qualquer estratégia de diversificação.
O corredor do Lobito surge como peça central desta equação. A ligação ferroviária entre a região do Copperbelt — República Democrática do Congo e Zâmbia — e o porto de Lobito é descrita não como um simples activo logístico, mas como motor de crescimento macroeconómico, com potencial para consolidar cadeias de valor regionais, reduzir custos de transporte e reforçar a posição de Angola no comércio internacional.
Totalmente desenvolvido, o corredor poderá reforçar o excedente da balança corrente e atrair mais investimento directo estrangeiro para infra-estruturas e processamento industrial. É também o eixo em torno do qual se estruturam vários projectos financiados pelo Banco Mundial: o programa de desenvolvimento de cidades secundárias, o projecto de diversificação económica e o futuro programa AgriConnect, orientados para exportações fora do sector mineiro e para a criação de emprego pelo sector privado.
Zeufack resume o momento angolano em três leituras dirigidas aos mercados. Primeiro, gestão de risco em vez de volatilidade descontrolada: a economia retoma o crescimento após uma longa recessão, com sectores não petrolíferos — agricultura, serviços e indústria — a ganhar peso gradual.
Segundo, política em vez de preço: o Plano Nacional de Desenvolvimento 2023–2027, a estratégia Angola 2050, as regras fiscais e as reformas cambiais e dos mercados de capitais compõem uma narrativa coerente, a de financiar a diversificação de amanhã com as receitas petrolíferas de hoje. Terceiro, risco residual mas instrumental mais sólido: inflação ainda elevada, taxa de câmbio sensível e concentração económica persistem, mas as reservas são mais robustas e a dívida segue trajectória decrescente, num conjunto de instrumentos macroeconómicos mais sólido em duas décadas.
Angola posiciona-se também na vanguarda de inovações de financiamento soberano. O recente pacote de apoio orçamental com o Banco Mundial — inédito a nível mundial — combina um empréstimo tradicional de política de desenvolvimento de 750 milhões de dólares com uma garantia dupla: cobertura de primeira perda do Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BIRD) e cobertura de segunda perda da Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (MIGA), estruturada para viabilizar um empréstimo comercial adicional de 400 milhões de dólares. Estas garantias sustentam uma troca de dívida por desenvolvimento, libertando recursos do serviço da dívida para reinvestimento directo no sistema nacional de educação.
O contexto internacional acrescenta uma camada adicional de oportunidade. A crise no Médio Oriente reacendeu as preocupações com segurança energética, tornando os produtores africanos alternativas mais atractivas ao Golfo. Petrolíferas internacionais reavaliam os produtores atlânticos relativamente estáveis e comprometidos com a reforma — Angola incluída —, o que pode traduzir-se em mais investimento em exploração e produção, maiores receitas de exportação e reforço adicional ao quadro macroeconómico em construção.
Para Zeufack, a resposta a “porquê Angola agora?” não está num indicador isolado, mas numa tendência: a de um país que resistiu a choques severos, tomou decisões politicamente difíceis e reconstrói, passo a passo, credibilidade junto de mercados e parceiros internacionais.



