Duas das marcas mais icónicas do mundo voltaram os olhos para Angola — e o que encontraram foi cultura, identidade e talento com mais de meio século de história.
A Bugatti, fabricante dos automóveis mais exclusivos do planeta, escolheu “Mona Ki Ngi Xica” — um dos temas mais emblemáticos da música angolana — para trilha sonora da sua mais recente campanha internacional.
O vídeo, filmado na Costa del Sol, em Espanha, combina imagens de alta performance e elegância com a voz inconfundível de Bonga, criando aquilo que a própria marca descreve como “um momento suspenso no tempo”.
A canção nasceu em 1972, no histórico álbum Angola 72, escrita durante o exílio. Uma música que emergiu da dor da separação e se transformou em símbolo de resistência, identidade e memória colectiva. Ao longo de mais de cinco décadas, atravessou gerações e fronteiras — e chegou agora ao universo do luxo automóvel de elite. Não é a primeira vez que o mundo descobre Bonga. No passado, o actor norte-americano Will Smith revelou que “Mona Ki Ngi Xica” fazia parte da sua playlist e promoveu-a em televisão, catapultando a canção para os tops do iTunes. Desta vez, é a Bugatti que a imortaliza.
A Adidas foi ainda mais longe. A gigante do desporto, através da sua linha de moda de alta gama Y-3 — nascida em 2002 da parceria com o designer japonês Yohji Yamamoto — entregou a concepção de uma campanha global inteiramente a uma equipa angolana. O conceito chama-se A Roda e é da autoria de Nazar, nome artístico de Alcides Simões, músico e produtor angolano radicado em Amsterdão e colaborador frequente da Y-3. Foi ele quem criou tudo de raiz: a música, o formato coreográfico e a proposta de filmar em Angola. A coreografia é assinada por Rubina Suzeth, considerada uma das figuras mais influentes da dança angolana contemporânea. A realização é do jovem Kim Praise, com direcção de fotografia de Ilídio Costa. Os bailarinos — Raul Alberto e Ronaldo Sambala — são angolanos. A cidade é Luanda.
O kuduro, nascido nos musseques da capital nos anos 1990, ocupa o centro da narrativa. Rubina Suzeth descreveu a experiência como “maravilhosa, histórica e cansativa” — mais de 14 horas de gravação para um resultado de apenas alguns minutos. “Isso prova e reafirma como as pessoas têm observado o meu trabalho”, disse a coreógrafa.
A especialista em marketing Vera Veloso resume o momento com precisão: “Duas marcas globais que reconheceram o que muitas marcas angolanas ainda não reconheceram na sua própria cultura. Autenticidade não se compra. Constrói-se. E Angola tem isso de sobra.”
Angola não é apenas inspiração. É referência.



