A contestação social e o início da disputa pela sua sucessão estão a fragilizar o Presidente angolano, João Lourenço.
A Lei dos Estrangeiros que o Governo português quer aprovar introduz imprevisibilidade e pode abrir feridas nas relações bilaterais.
Segundo o Jornal de Negócios, os interesses económicos de Angola em Portugal mantêm-se inalterados, mas o país tem vindo a perder relevância na teia das relações diplomáticas e empresariais.
Esta descida de três lugares face ao “ranking” de 2024 é igualmente um sinal de fim de ciclo de João Lourenço e das suas crescentes fragilidades. Paradoxalmente, o chefe de Estado angolano tem aumentando a influência externa do país, mas internamente está numa maré baixa por causa da débil situação económica.
De acordo com o Negócios, no Palácio da Cidade Alta, residência oficial do chefe de Estado, João Lourenço está cada vez mais isolado, sobretudo por vontade própria. Em sentido inverso, os dedos de uma mão são excessivos para contar as pessoas às quais o Presidente angolano pede opinião, aceitando o contraditório. Na verdade são apenas duas, o general Fernando Miala, responsável pelo SINSE (Serviço de Inteligência e Segurança de Estado) e o jurista Carlos Feijó.
Outros, como Edeltrudes Costa, director do gabinete do Presidente da República, e José de Lima Massano, ministro de Estado para a Coordenação Económica, sendo próximos, são figuras que geralmente concordam com as opiniões expressas por João Lourenço.
Na frente das relações com Portugal o quadro mantém-se inalterado, embora o montante dos atrasados que o Governo angolano tem junto das empresas nacionais esteja de novo a aumentar, uma situação que se relaciona com as prioridades fixadas a nível superior. Assim, no topo da lista, encontra-se o pagamento da dívida à China e, de seguida, segue-se o processamento dos salários dos funcionários públicos. Só depois, existindo disponibilidade de tesouraria, é que surge o ressarcimento da dívida às empresas.
Todavia, a nova Lei dos Estrangeiros e a forma acintosa como André Ventura, líder do Chega e defensor da mesma, se tem referido a Angola e ao seu Presidente – “sanguinário” e “ditador” foram dois dos termos usados – poderá alterar este quadro de tranquilidade. João Lourenço, em entrevista à CNN Portugal, em julho deste ano, admitiu incómodo com essa lei e lembrou a história. “Os portugueses emigraram para todo o mundo e o mínimo que exigimos é que Portugal não trate os imigrantes, que escolheram Portugal como destino para fazerem suas vidas, de forma pior do que foram tratados nos países que os acolheram ao longo dos anos.”
A lei dos Estrangeiros e os expatriados
O MPLA, historicamente, tem uma maior proximidade com o PSD do que com o PS, mas a aproximação de Montenegro a Ventura e a questão da Lei dos Estrangeiros pode trazer engulhos na relação, sabendo-se que Angola tem uma arma poderosa, consubstanciada no elevado número de expatriados portugueses que vivem no país e de empresas portuguesas que têm uma actividade relevante.
As participações accionistas que a Sonangol mantém na Galp e no Millennium BCP continuam a ser importantes instrumentos de política diplomática. “Trata-se de investimentos que fazem parte de uma importante carteira de activos externos, sendo igualmente sinalizadores da importância que conferimos às relações económicas e financeiras entre os nossos países”, garantiu José de Lima Massano em entrevista ao Negócios, em maio deste ano. De resto, já há um par de anos que não existem novos investimentos angolanos em Portugal.
Em sentido inverso, os portugueses continuam a ter uma presença relevante em sectores como a construção e a hotelaria, pese embora tenham perdido relevância no sector da banca.
Nesta fase o projecto mediático é o Corredor do Lobito em cuja exploração está envolvida a Mota-Engil, que juntamente com a Trafigura e a Vecturis integra o consórcio Lobito Atlantic Railway.
“Depois do colapso do BESA e da venda do BPI ao CaixaBank, perdemos ali dois grandes bancos em Angola. Agora falta-nos esse músculo financeiro privado”, constatou o embaixador de Portugal em Angola, Francisco Alegre Duarte, numa entrevista publicada no Negócios a 3 de junho.
A China, nesta fase, é o calcanhar de Aquiles de Angola. João Lourenço ensaiou uma aproximação aos Estados Unidos para fugir da dependência de Pequim, mas o plano enfrenta sobressaltos desde que Donald Trump entrou na Casa Branca. A política externa dos EUA passou a ter a previsibilidade de um cata-vento e os investimentos norte-americanos marcam passo. Por exemplo, o financiamento de 553 milhões de dólares por parte do DFC (Departamento de Desenvolvimento e Financiamento Internacional dos Estados Unidos) ao corredor do Lobito está há meses por aprovar, embora os envolvidos continuem a garantir que tudo decorre na normalidade.
Ainda assim, a 17.ª Cimeira de Negócios EUA-África que decorreu entre 22 e 25 de julho em Luanda e reuniu mais de 1.500 participantes, entre eles 10 chefes de Estado e de Governo africanos, governantes e empresários dos EUA e África, foi uma iniciativa bem-sucedida ao nível da projecção da imagem externa de Angola.
A cereja no topo do bolo foi a produção de um programa “Quest Means Business” em Angola, apresentado por Richard Quest e transmitido na CNN Internacional.
A afirmação de Angola como potência regional é, aliás, uma das conquistas de João Lourenço durante os seus dois mandatos. O primeiro Presidente, Agostinho Neto, foi o “pai da independência”, José Eduardo dos Santos o “arquiteto da paz” e João Lourenço aquele que lutou para dar uma dimensão pan-africana ao país.
O Presidente da República projectou Angola à escala global, mas esta conquista de pouco tem servido para captar mais investimento, por três ordens de razão: 1) a perceção de corrupção; 2) os atrasos nos pagamento; 3) a dificuldade no expatriamento dos lucros.
O seu percurso na liderança do país aproxima-se do fim (as eleições gerais estão previstas para agosto de 2027) e o actual chefe de Estado pretende assegurar, no futuro, algum ascendente político que lhe garanta estabilidade pessoal. Os próximos meses vão ser de grande exigência, até porque a instabilidade que se viveu no final de julho e ainda paira no quotidiano de Angola, mostra que o MPLA enfrenta novos desafios. Aliás, a circunstância de João Lourenço ter dito que os tumultos foram orquestrados “por organizações antipatriotas nacionais e estrangeiras através das redes sociais” indica que o Governo tem informação segura de que existem instituições ou mesmo países que estão a tentar contribuir para uma mudança de ciclo, afastando o MPLA do poder.
Evolução no “ranking” de Os Mais Poderosos
Entrou nesta lista em 2018, ocupando o lugar do seu antecessor na Presidência de Angola, José Eduardo dos Santos. A perda de poder resulta também das dificuldades económicas do país.
BILHETE DE IDENTIDADE
Cargo: Presidente da República de Angola.
Naturalidade: Nasceu no Lobito a 5 de março de 1954.
Formação: Mestre em Ciências Históricas pela Academia Superior Lenine, na extinta URSS.
Outros cargos: Ministro da Defesa entre 2014 e 2017. É general de três estrelas, na reserva, das Forças Armadas Angolanas.
A divulgação da lista dos 50 #mais poderosos da economia portuguesa iniciou no passado dia 1 de Agosto. A iniciativa editorial, que arrancou em 2010, tornou-se uma referência no panorama jornalístico português e uma bússola para identificar os protagonistas e perceber as dinâmicas que influenciam o comportamento da economia lusa.
O ranking identifica os protagonistas, nacionais e internacionais, que mexem com o rumo daquele país, quais as respectivas redes de influência e a forma como exercem o seu poder.
A lista é elaborada com base numa tabela de cinco critérios, o Poder da Fortuna, a Rede Empresarial, a Influência Política, a Influência Mediática e a Perenidade.